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Há 20 anos, Pedro Paulo Monteiro se formou em fisioterapia e começou a atender pessoas idosas, nas próprias casas. Não satisfeito com o que seus conhecimentos ofereciam aos pacientes, ele decidiu ampliar o leque e estudar neurologia.
Ainda não contente com o que a nova especialização oferecia ao paciente, foi buscar a psicologia. Percebeu que precisava incluir um aspecto espiritual e traballhou com terapias de energia vital. Para completar, ainda fez um mestrado em gerontologia, dedicando-se ao estudo biopsicossocial do envelhecimento. Ele conta que a idéia era observar e entender o envelhecimento como um processo de transformação. A dedicação rendeu frutos e hoje, Pedro Paulo, de 41 anos, além de gerontólogo, é autor de livros sobre o tema, ministra palestras e escreve artigos sempre defendendo a necessidade da conscientização para buscar uma velhice mais humanizada e menos excludente. “Quero trabalhar a mudança do corpo e a saúde como algo biopsiquicossocial.
A diminuição de vida não é só biológica, ela é social. Perde-se o lugar e o significado, perdendo a referência. Aí a questão da existência começa a aparecer.” Em entrevista ao Bem Viver, o autor fala sobre o tema de seu novo livro, A beleza do corpo na dinâmica do envelhecer, da coleção Envelhecer e Viver, lançado pela Editora Gutenberg.
Como debater o tema “envelhecer com beleza” numa sociedade em que o botox e as cirurgias plásticas são tão banalizadas?
Vivemos a era da estética sem ética. Esquecemos que a beleza é algo que não se pode comprar. Podemos comprar as máscaras para encenar uma personagem no palco social. Porém, somos muito mais que isso. Somos humanos repletos de história. Sendo assim, ninguém consegue ser belo se não for pelo caminho da interioridade. A beleza humana está na totalidade, na expressão genuína e sincera de quem se é como indivíduo. Não sou contra cirurgias e procedimentos estéticos, mas sou a favor de uma vida mais consciente. A vida sem reflexão é uma vida de cópia. Você olha a capa da revista de moda e deseja ter o mesmo rosto, a mesma roupa, para ser quem você não é. Escolhi este tema a fim de trazer ao público uma alternativa. Conhecemos um lado apenas, somos instigados a pensar a estética como lei a ser cumprida. Quem não obedecer às regras estará fora do jogo. Isso é escravidão.
O que mudou na dinâmica da sociedade para que valorizemos tanto a beleza feita em salões, clínicas e mesas de cirurgias, negando o passar do tempo?
Com o avanço tecnológico, ganhamos mais tempo e, paradoxalmente, ficamos sem tempo. Para dar conta de tantas informações, as pessoas se tornam superficiais, não dialogam. Não querem ouvir a história do outro. Sendo assim, é preciso chamar a atenção, e nada melhor do que mostrar a casca, a embalagem. Se pararmos para pensar sobre o botox, por exemplo, veremos que ele é uma representação fidedigna do simulacro. Ele é um procedimento que provoca paralisia dos músculos da face. Um rosto sem movimento é um rosto morto, sem expressão. Faz sentido quando pensamos que envelhecer é um processo de transformação, uma ação que nos leva além de nossa forma atual. Se as pessoas querem negar o envelhecer, terão de negar a vida. Por isso o caminho é a paralisia, a estabilidade. Sem contração dos músculos, não há linhas conseqüentemente não há caminho percorrido. Sem história, não há idade.
No livro você fala de aparência e beleza. Qual é a diferença?
Atualmente, as palavras são usadas como sinônimos, porém, isso não é verdadeiro. A beleza é potência emocional, desencadeada pelas sensações e sentimentos. Ela deflagra reações corporais que são totalmente incontroladas pela razão. Portanto, numa sociedade cujas pessoas parecem ter perdido a noção do próprio corpo, é fácil compreender a incapacidade de sentir a beleza. Muitos acreditam que beleza é somente o agradável, porque a mídia, interessada em vender seus produtos, conseguiu incutir em todos uma profunda marca inconsciente (imprint). Elas acham que a aparência agradável é uma virtude. Será que podemos confiar na aparência virtuosa de mulheres e homens das propagandas? Evidentemente que não, porque onde houver manipulação não pode existir virtude. Estas imagens são tratadas por recursos tecnológicos para nos vender uma idéia, que é transformada em códigos mentais, que, por sua vez, será reproduzida nos códigos culturais. Por isso as pessoas acreditam fielmente que o objeto de desejo é uma necessidade, compram a idéia do que é bom e bonito, ruim e feio.
Em um mundo que envelhece cada vez mais, por que a beleza jovem é a única valorizada?
Devido às crenças. Olhamos mais com nossas crenças do que com nossos olhos. Se retirarmos a lente da crença por alguns instantes, encontraremos sim modelos de beleza na velhice. Por exemplo, Sophia Loren, aos 71 anos, foi capa da edição de 2007 do calendário Pirelli. Uma mulher que atravessou o século, e ainda é cobiçada. Creio que ela conseguiu inaugurar um novo modelo de velhice. Se o calendário da Pirelli desafia a moda, cria tendências e modifica o convencional, espero ver o novo surgir num corpo velho. Hoje foi Sophia Loren, amanhã poderá ser a velha Angelina Jolie.
Por que a palavra “velho” ganhou idéia de algo negativo? Ela já teve outros significados?
Porque o indivíduo passou a ser considerado objeto de consumo. Quando respeitamos uma história de vida, qualificamos o sujeito. Quando pensamos a pessoa como número, a quantificamos pela idade cronológica. Sendo assim, descartá-la fica mais fácil. O egocentrismo determina que aquilo que não é bom, bonito, prazeroso deve ser eliminado. Esta semana, participei de uma mesa-redonda e um dos palestrantes disse não gostar da palavra “velho”, porque lhe parece com o seu antigo computador, que foi para o lixo. Não gosto da analogia, não acredito que gente deva ser comparada a máquina. Desde o século 17, as pessoas fazem isso. René Descartes comparava o funcionamento do relógio à fisiologia humana. Hoje, muitos comparam o corpo a um hardware e a mente a um software. Gente é poesia. Imagine se Ernest Hemingway tivesse escrito O idoso e o mar. Não seria tão poético quanto sua obra original, O velho e o mar. Na verdade, somos e seremos sempre o velho de alguém.
Com o tempo, não há como negar as mudanças físicas, como a diminuição da agilidade. Qual o aprendizado ou qual beleza nesse novo ritmo do corpo?
No livro, escrevo que a beleza só será verdadeira quando realmente puder nos tocar, deixando os nervos excitados, olhos vivos e brilhantes, pele arrepiada e responsiva, corpo vivificado. Beleza é perplexidade. Sem a participação do corpo em cena, não há beleza, apenas simulacro. Não somos capazes de contemplar a beleza de fora, porque ela deve sair de dentro de nós primeiro. A beleza é um sentimento de felicidade (não me refiro à suposta felicidade alcançada pelos antidepressivos), ela é um entusiasmo que nos faz querer seguir em frente. Somente pelo processo de envelhecer teremos a chance de experimentar o belo. É na travessia do tempo que podemos conhecer, porque é cruzando espaços que aprendemos. A beleza requer parada, contemplação e continuidade. Por isso, é um processo gradual e suave. Na pressa nada se alcança, tudo se esvai, tudo foge.
No livro você comenta sobre a dificuldade de as mulheres mais velhas se casarem novamente, o que não ocorre com os homens. Por quê?
Existem dois aspectos importantes. Primeiramente, devido ao aprendizado cultural. Estamos avançando, já vemos isso ocorrer com mais freqüência. Eu mesmo me casei com uma mulher 10 anos mais velha e que era viúva. Segundo, porque uma mulher velha exerceria com facilidade seu poder sobre o homem jovem. Eles sentem muito medo de depender delas, porque verdadeiramente já são dependentes (de uma mãe simbólica na pele, de uma esposa ou parceira). Segundo uma pesquisa de 2007, da Fundação Perseu Abramo, somente 14% dos homens acima de 60 anos são viúvos, contra 48% das mulheres. Por outro lado, 73% dos homens são casados e apenas 37% delas. Isso significa que os homens viúvos não ficam nessa condição por muito tempo, enquanto as mulheres permanecem sozinhas. Outro dado observado foi que 58% dos homens velhos e dependentes de cuidados mantêm vínculos com uma parceira, enquanto 24% das mulheres fazem o mesmo. Apenas 15% dos homens são cuidados pelos filhos, contra 36% das mulheres. Isso demonstra que enquanto as mulheres parecem ter nascido para cuidar, os homens nasceram para serem cuidados. Na própria linguagem vemos isso. Os homens velhos, feios e justos são sábios. Enquanto as mulheres velhas, feias e justas são uma saga – nome dado pelos romanos para bruxa e feiticeira.
O Brasil está preparado para ser um país com uma população mais velha?
Sem dúvida que não. Precisamos de mais discussões sobre o tema, mais competência profissional e mudanças de crenças.
Qual é a beleza de envelhecer? Como irradiar a beleza em qualquer idade?
Quando deixarmos de considerar o corpo como um amontoado de imperfeições e trafegar o envelhecimento com expectativas positivas. Porque o corpo, independentemente do tempo, será sempre precioso. Quando soubermos que somente o verdadeiro e desinteressado amor poderá nos preencher por toda a vida. Se lograrmos esse amor, mesmo na velhice, continuaremos a radiar beleza. Não tenhamos dúvida de que o sol que esquenta a rocha durante todo o dia a manterá aquecida ao anoitecer.
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